Gestão

A DRE em 8 minutos pra quem nunca leu uma

A demonstração de resultado parece coisa de contador, mas é só o caminho que cada real percorre — do faturamento ao que sobra. Veja como ler a sua olhando para R$ 100 de receita.

Suely Marins · Jun 2026 · 8 min leitura

O que é DRE em uma frase

A Demonstração do Resultado do Exercício mostra, de cima para baixo, o que aconteceu com cada real que entrou na empresa. Começa na receita bruta e termina no lucro líquido, o que de fato pertence aos sócios depois de pagar tudo. Cada linha desconta uma camada de custo, despesa ou imposto.

Quem nunca leu uma DRE costuma achar que ela é "coisa de contador". É, na verdade, o relatório mais útil que existe para entender se a empresa ganhou ou perdeu dinheiro num período, e por quê.

DRE com R$ 100, linha a linha

Imagine uma empresa que faturou exatamente R$ 100 no mês. A DRE acompanha esse R$ 100 sumindo aos poucos.

Receita bruta — R$ 100

É tudo que a empresa cobrou no período. Inclui produtos vendidos, serviços prestados, mensalidade, parcela. Tudo que gerou nota fiscal.

Importante: receita bruta não é caixa. Se você vendeu parcelado, a receita já entra integral no mês da venda; o dinheiro chega depois.

Deduções — R$ (9)

A primeira mordida vem aqui. São impostos sobre a receita (no Simples Nacional, o DAS sai daqui; no Lucro Presumido, é PIS, COFINS, ISS ou ICMS), devoluções de cliente e descontos comerciais.

A alíquota muda muito por regime, anexo e atividade. Para uma loja no Simples, Anexo I, faixa inicial, pode ficar perto de 4%. Para uma prestadora de serviço no Anexo III, perto de 6%. Para uma empresa no Presumido, a soma de PIS, COFINS e ISS varia bastante. Não use número fixo. Peça ao seu contador o cálculo da sua atividade.

Receita líquida — R$ 91

É a receita bruta menos as deduções. Daqui pra baixo, todo cálculo de margem usa essa base.

Custo dos produtos ou serviços vendidos — R$ (50)

CMV (mercadorias), CPV (produção) ou CSP (serviços). É o quanto custou produzir o que foi vendido. Para o comércio, é o preço de compra das mercadorias que saíram. Para o serviço, é a hora do profissional que executou. Para a indústria, é matéria-prima mais mão de obra direta mais energia da fábrica.

Não confunda com despesa. Custo é diretamente ligado ao que foi vendido. Aluguel da loja, salário do administrativo, conta de luz do escritório, isso é despesa, vem depois.

Lucro bruto — R$ 41

Receita líquida menos custo direto. É a margem bruta do negócio. Indica quanto sobra para pagar todo o resto da estrutura.

Margem bruta abaixo de 30% num comércio pequeno, ou abaixo de 50% em serviço, costuma ser sinal de preço mal calculado ou compra cara demais. Mas não trate como regra universal: existem setores que operam saudáveis bem abaixo disso. O que importa é a tendência da própria empresa.

Despesas operacionais — R$ (25)

Tudo que mantém a empresa funcionando mas não é custo direto: aluguel, contas (luz, água, internet), salário e encargos do administrativo, contador, marketing, software, transporte, manutenção.

Despesas crescem em camadas, geralmente sem alarde. É a linha onde mais escapa dinheiro quando ninguém olha mensalmente.

EBITDA — R$ 16

Sigla feia, conceito útil: é o resultado operacional antes de juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização. Mostra o quanto a operação em si gera, sem efeito de financiamento e sem ajuste contábil de ativos.

Quando alguém quer comparar duas empresas do mesmo setor ignorando estrutura de capital e idade dos ativos, olha EBITDA.

Resultado financeiro — R$ (4)

Juros pagos em empréstimo, capital de giro, cheque especial, antecipação de recebível, menos eventuais juros recebidos em aplicação. Para a maioria das PMEs, esta linha é negativa.

Atenção: tarifas de adquirente (a famosa "taxa de máquina") podem aparecer aqui ou em despesa operacional, depende do plano de contas que o seu contador adota. Pergunte onde a sua está.

Lucro antes do IR — R$ 12

EBITDA menos depreciação, amortização e resultado financeiro. É a base sobre a qual o imposto de renda da pessoa jurídica é calculado em regimes que tributam o lucro efetivo. No Simples e no Presumido, o IR sobre o lucro já entrou em outra ponta da conta: pelo DAS, no Simples; pela presunção de lucro, no Presumido.

Impostos sobre o lucro — R$ (2)

IRPJ e CSLL. Em regimes que apuram pelo lucro efetivo, a tributação sai dessa linha. No Simples e no Presumido, regimes em que a Axios atua, o IR sobre o lucro já foi recolhido em etapa anterior.

Lucro líquido — R$ 10

Isso é o que sobra. Os R$ 10 representam 10% da receita bruta inicial.

Esse é o número que pode virar distribuição de lucros aos sócios, reinvestimento na empresa ou reserva. Não é o caixa do mês: é o resultado contábil do mês. A diferença entre os dois é o que destrava a parte final deste artigo.

Os três indicadores que importam

Olhar a DRE inteira todo mês cansa. Três margens já dão o pulso do negócio.

Margem bruta = Lucro bruto ÷ Receita líquida. No exemplo, 41 ÷ 91 ≈ 45%. Cair muito de um mês pro outro sinaliza que o custo de mercadoria ou insumo subiu, ou que o preço de venda foi reduzido sem ajuste.

Margem operacional = EBITDA ÷ Receita líquida. No exemplo, 16 ÷ 91 ≈ 18%. Mostra a eficiência da operação como um todo. Cair indica que despesa fixa cresceu mais rápido que a receita.

Margem líquida = Lucro líquido ÷ Receita bruta. No exemplo, 10 ÷ 100 = 10%. É o "quanto sobra de cada real". Compare com a sua expectativa de sócio: se você esperava 25% e está em 10%, alguma camada está consumindo demais.

Não existe margem "certa" universal. Comércio pequeno costuma viver com líquida de um dígito a baixos dois dígitos. Serviço com pouca estrutura tende a operar com margens maiores. Indústria varia muito por setor. Use o histórico da própria empresa como referência: o que importa é a tendência, não o número absoluto.

Por que olhar mensalmente, e não só no fim do ano

A DRE anual conta uma história fechada. Quando você vê, o ano já passou. A mensal mostra a curva enquanto ela ainda pode ser corrigida.

Quando a margem bruta começa a cair três meses seguidos, há tempo de revisar preço, renegociar fornecedor, mudar mix de produto. Quando a despesa operacional cresce 8% num mês isolado, dá para investigar se foi gasto pontual (manutenção grande, evento) ou estrutural (novo software que ninguém vai cortar mais).

A maioria dos contadores entrega balancete mensal. Peça o seu em formato de DRE comparativo: mês atual contra mês anterior, ou mês atual contra o mesmo mês do ano passado. Se o seu não envia, é razoável perguntar por quê.

O erro clássico: confundir lucro com caixa

Esta é a parte que derruba empresa lucrativa.

Lucro contábil aparece na DRE no mês da venda, mesmo que o cliente vá pagar em 60 dias. Custo aparece no mês da venda, mesmo que o fornecedor tenha sido pago à vista, dois meses antes. Esse princípio se chama regime de competência, e é o que a DRE usa.

Resultado: você pode ter R$ 10 de lucro na DRE de junho e zero no caixa de junho. O dinheiro entra em agosto, saiu em maio. Quando o caixa estoura, parece "impossível", porque a empresa está dando lucro.

A DRE responde "ganhei dinheiro?". O fluxo de caixa responde "tenho dinheiro?". São duas perguntas diferentes, e olhar só uma delas explica boa parte das quebras de pequena e média empresa no Brasil. Vamos abrir esse segundo relatório em outro artigo desta série.

Como começar a usar a sua DRE

Três passos práticos.

Primeiro: peça ao seu contador o balancete mensal em formato de DRE comparativo. Se ele não entrega ou demora, esse é o primeiro alerta.

Segundo: dedique 15 minutos por mês para olhar as três margens. Anote num caderno ou planilha. Em três meses você já enxerga tendência.

Terceiro: marque conversas trimestrais com quem cuida da contabilidade do seu negócio para entender as variações. Não para reclamar, para entender. O contador tem a informação; o empresário tem o contexto da decisão. As duas precisam encostar.

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